Conheça o sistema reprodutivo e de castas das abelhas sem ferrão.

Na segunda-feira (19), ocorreu o seminário ministrado pela doutora Gislene Carvalho-Zilse com o tema: “Sexos e castas em abelhas: explicações e implicações”, no auditório do LEEM/ADAPTA.

As abelhas pertencem à família Apidae e no Brasil constituem o total de 1678 espécies. Em dados estatísticos, esses insetos são responsáveis por até 73% da polinização animal de cerca de 90% de espécies dotadas de flores que necessitam desse processo de transporte de pólen.

“Espécies aqui da Amazônia como guaraná e o açaí, são polinizadas por abelhas sem ferrão. Estas abelhas colaboram em até 90% da polinização das plantas amazônicas mas não só isso contribuem também com várias culturas agrícolas. Hoje 30% dos alimentos de origem vegetal que chegam a nossa mesa dependem da polinização desses animais”, apontou Carvalho-Zilse.

Doutora Gislene Carvalho-Zilse, apresentando o seminário sobre as abelhas sem ferrão.

Quando se fala sobre as abelhas sem ferrão, o termo usado para sua criação – Meliponicultura – vem da tribo a qual pertencem – Meliponini. O professor Paulo Nogueira Neto (um iminente empreendedor da agricultura sustentável no Brasil) criou o termo para diferenciar e valorizar o cultivo dos Melíponinios em relação as outras abelhas (Apicultura – criação de abelhas com ferrão Apis mellifera). Existem cerca de 400 espécies de abelhas sem ferrão espalhadas pelo mundo, destas 58% habitam o Brasil e 30% ocorrem no Amazonas.

O Grupo de Pesquisas em Abelhas – GPA tem direcionado suas pesquisas para duas espécies amazônicas: a Melipona interrupta e a Melipona seminigra. “São as principais abelhas cultivadas no Amazonas, elas estão sendo estudadas como abelhas modelo para entendermos como se reproduzem, o que implica em conhecermos seu sistema genético para definição dos sexos (machos e fêmeas) e das castas (rainhas e operárias)”, contou a coordenadora do GPA, Doutora Zilse.

A vida dentro da colônia

Dentro da colmeia existem a abelha-rainha, as operárias e os machos. O sistema reprodutivo desses insetos sem ferrão é diferente dos outros tipos de abelhas, pois a rainha só é produzida se tiver genética pré-determinada para tal e se for bem alimentada.

“Nas primeiras horas embrionárias ocorre a determinação do sexo, sendo os machos oriundos de ovos não fecundados, portanto, os machos não têm pai, nascem por partenogênese. Os ovos fecundados darão origem a fêmeas, as quais apenas no final da fase larval se diferenciarão em rainhas ou operárias, explicou a doutora Gislene Zilse.

Por acasalamentos aleatórios que resultam em combinações genéticas excepcionais, algumas vezes na colmeia nascem machos diploides, compondo 50% da progênie. Estes machos não são competitivos sexualmente e são considerados estéreis. Assim, são eliminados da colônia pelas operarias uma vez que não são capazes de fecundar as fêmeas. Em algumas espécies do gênero Melipona as operárias matam, além destes machos diploides, também a rainha que os está produzindo.

“Para manter a variabilidade genética evitando machos diploides, é preciso ter pelo menos 44 colmeias de uma mesma espécie na área de reprodução da espécie. É importante destacar que estas abelhas não voam para muito longe, portanto, sua área de reprodução tem cerca de 1 a 2 km de raio”, contou Carvalho-Zilse.

A Melipona seminigra, por exemplo, possui uma própria estratégia para manter a variabilidade e evitar produção de machos diploides. Esta espécie apresenta poliandria obrigatória, ou seja, a fêmea dessa espécie se acasala com pelo menos seis machos, e assim, gera uma diversidade em seus descendentes.

Produzindo rainhas

Para a geração de uma rainha no gênero Melipona, o doutor Kerr (Dr. Warwick Estevan Kerr é um dos geneticistas mais reconhecidos do Brasil e iniciou todo o trabalho com abelhas no Brasil) observou que não é a qualidade de alimento que diferencia a abelha-rainha das demais – levando em consideração outras espécies de abelhas que oferecem alimento especial às suas larvas (geleia real, no caso de Apis mellifera) ou em maior quantidade (como em abelhas sem ferrão de outros gêneros, que não Melipona) – mas sim uma pré-condição genética.

O cientista observou que existia uma segregação relativamente frequente nas colmeias, mas não constante ao longo do ano, de nascimento de três operárias para uma rainha (3:1). Esse fenômeno de produção de até 25% de rainhas foi explicado por Kerr propondo a existência de 2 genes que se segregam conforme a Lei de Mendel.

“A explicação do Dr. Kerr para que não se observe a proporção 3:1 nas colmeias ao longo do ano todo, é que as larvas têm que estar bem nutridas, ou seja, há necessidade de uma alimentação mínima suficiente das larvas para que desenvolvam sua pré-condição genética. Em determinadas épocas do ano (como no inverno amazônico com muita chuva) a alimentação não é suficiente para que nutricionalmente a abelha consiga expressar sua pré-condição genética. Desta forma, explica-se o nascimento de menos que 25% de rainhas nas colmeias nestes períodos” explicou Zilse.

Ao fim do seminário, o Doutor Adalberto Val entregou o certificado para a palestrante da semana.

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